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GP do Azerbaijão

O retorno do bumerangue

Não é só de classificação da Roma e de bloqueios de LeBron James que vive o mundo dos desportos. Esta caixinha de surpresas chamada esporte impressiona muita gente. Até mesmo a tão elitizada Fórmula 1. O sopro do vento não o único fator decisivo em Baku, mas sim o da sorte. O favorecido da vez foi Lewis Hamilton, que ainda não tinha vencido uma prova nesta temporada.

Ainda no treino de sábado, pensei que era uma boa classificação ter os pilotos com as melhores máquinas no topo do grid. Afinal, em curvas estreitas do circuito de rua, largar na frente é a melhor opção para se proteger dos eventuais problemas da turma do fundão. No começo da corrida, esta teoria foi assegurada. Mas nas últimas voltas, a opinião meramente formada no dia anterior se mostrou sem pé nem cabeça. Bom para quem assiste e péssimo para quem lidera o pelotão.

Senão fosse pelo detrito que lhe furou o pneu, a duas voltas do fim, Valtteri Bottas venceria o GP do Azerbaijão e seria justíssimo. Contudo, a competitividade é forte demais para se delimitar ao futuro do pretérito. Na classificação, ficou 0s1 atrás de seu companheiro de equipe, Lewis Hamilton. Durante a corrida, Bottas não teve problemas em freadas tardias ou saídas da pista. Fez um bom trabalho e merece créditos por isto, em virtude das tão travadas e difíceis curvas de Baku. A decepção do finlandês é ainda maior, já que poderia agora ser líder do campeonato. Uma vez que Bottas tem se aproveitado da má fase de Hamilton.

E a tal apatia de Lewis Hamilton no pódio tem motivo. Cordial, o inglês atrasou a cerimônia para cumprimentar o companheiro de equipe e apesar de muitos fatores terem conspirado a seu favor, sabe que há muito que fazer para ter um carro com potência equitativa ao do Ferrari. Os italianos são melhores em classificação, porém, perdem força em ritmo de corrida. As flechas de prata estão em defasagem na evolução do carro, algo que não era tão previsto. Seguindo quase o mesmo script da temporada passada. Não é só a equipe alemã que necessita de uma repaginação. Este é o timing perfeito também para Lewis desvendar o mistério de resultados fracos, voltar à tona e colocar em prática a sua tão tradicional Hammer Time.

Por falar nos italianos, a Ferrari teve um final de semana quase perfeito. No sábado, as duas Ferrari tiveram um bom desempenho e Sebastian Vettel levou a pole. Já na prova, o alemão manteve a liderança e abria ampla vantagem em relação aos demais. Volta rápida atrás de volta rápida. O tetracampeão voava com pneus velhos e quando parou, a scuderia acertou na estratégia. A derrocada veio em uma tentativa de ultrapassagem. Vettel tentou passar Bottas em uma manobra mal sucedida, lampeira. Freou errado e escapou da pista, caindo para quarto lugar.

O GP do Azerbaijão marca mais uma vez uma falha de Vettel em conquistar pontos em momentos oportunos. Na China, o alemão teve problemas com Max Verstappen. Já em Baku, acelerou mais do que deveria. Dito isso, Seb continua calmo. Otimista, o alemão persevera e ainda acredita no potencial do carro.  Sensato. Em condições de classificação e corrida, o bólido apresenta vantagem aos concorrentes.

E se tudo que eu citei até agora não tiver provado a ausência de normalidade da sucessão de fatos em Baku, a cereja do bolo veio com a disputa acirrada entre os pilotos da Red Bull. Na volta de número 40, Daniel Ricciardo notou espaço para ultrapassagem. Sei, ele foi ousado e otimista demais para saber que sofreria para tentar passar o holandês. De qualquer forma, a atitude faceira de Ricciardo ganhou ápice quando ele atingiu a traseira do bólido de Max. Acredito que o australiano deveria ter sido mais atento com o espaço entre ele e Max, mas preciso admitir que Verstappen comete o mesmo erro há temporadas. Em 2016, tocou em Nico Rosberg no Canadá e ainda, Lewis Hamilton no Japão. A tal da mudança de trajetória é frequente. Aliás, o neerlandês não navega bons mares após ter cometido falhas infantis em território sínico e ter visto Ricciardo consagrar a vitória. Se nem as críticas feitas por Sebastian Vettel após o GP da China mudaram a situação, este seria o ideal momento para Christian Horner e companhia puxar a orelha de seus pilotos. É preciso elencar que Max Verstappen é jovem, apenas na idade. Com quatro temporadas no currículo, ele precisa mostrar que pode ir mais além neste quesito da maturidade. Ele é arrojado e já provou o que sabe fazer. Digo mais: acredito que ele se engrandecerá a partir do momento que deixar de ser tratado como “Verstappinho”.

Para não dizer que não falei das flores. Charles Leclerc, o rookie da atual temporada, pontuou pela primeira vez. Uma boa notícia tanto para a Sauber, quanto para a Ferrari – já que o jovem é cotado para ser o futuro sucessor do cargo de Kimi Raikkonen. De 14º no grid, após a corrida maluca, conseguiu chegar em 6º na quarta corrida pela categoria. É notável o quanto Charles se adaptou ao circuito de rua. Nestas horas, ser monegasco fala mais alto.

No geral, a prova em Baku foi imprevisível. Disputa entre companheiros e a tal herança da vitória que caiu nas mãos de quem nem tanto lutou por ela. Corrida em que tanta gente mereceu aplauso – ou no mínimo vencer o melhor piloto do dia. Gostamos disso. E por fim, Boomerang Blues é profética, eu posso provar. Tudo o que você faz, um dia volta pra você. Ainda no final da temporada de 2012, Lewis Hamilton vencia a prova em Singapura até sofrer com problemas no motor e abandonar a corrida no 23º giro. Fazendo assim, a vitória cair no colo de Sebastian Vettel, o que foi de extrema importância para conquistar pontos na trilha de seu tricampeonato. Desta vez, a sorte soprou para o piloto da flecha de prata. Se estes pontos serão essenciais como outrora? Veremos. Por enquanto, não é preciso entrar em discussões sobre mérito, como dizem os próprios volantes, this is racing.

Os volantes mais birutas do mundo

Pelo título, é possível notar que a pessoa que vos escreve é apaixonada por desenhos animados. Uso diversas animações para explicar minhas opiniões e farei isto agora. No filme Ratatouille da Pixar, o crítico do jornal é exigente demais com os restaurantes por adorar a gastronomia. Neste caso, eu sou o Anton Ego e Vettel, a gastronomia. Compreendem?

Ainda é muito cedo para cantar a bola do pentacampeonato ou de um possível tetra. A Fórmula 1 em 2017 é tão misteriosa e apta para nos surpreender em razão de sua competitividade e certo equilíbrio entre as maiores equipes montadoras do grid. O crescimento da Ferrari, em comparação ao ano passado, é brilhante. A Mercedes continua grande e poderosa. Se a temporada até agora vinha sendo disputada de uma maneira bela e limpa, o GP do Azerbaijão nos espantou – agora de forma negativa.

No trânsito casual das grandes cidades, o motorista que colide o carro da frente é considerado culpado. Logo, Vettel errou em Baku.

Hamilton, como líder da prova, pode e deve mandar o ritmo na corrida sob vigilância do Safety Car. Se Hamilton houvesse desacelerado (FIA já comprovou que não houve frenagem), ele ainda estaria em seu direito constatado no regulamento. No mínimo, Vettel deveria ter prestado atenção.

O segundo toque do alemão agravou a situação. Bater, propositalmente, em Hamilton foi ignorância. Voltou a ser aquele moleque que bate em Webber e ainda se livra da culpa. A diferença entre aquele Vettel e este de agora é a somatória de 45 vitórias e 4 títulos. Este não é um comportamento esperado de qualquer piloto da categoria mor do automobilismo, quem dirá de um tetracampeão.

Medo não justifica ações antidesportivas. A Ferrari sentiu o peso da corrida do Canadá e a possível derrota em Baku. Além da futura troca do turbocompreensor que será convertida em punição. Não é possível que o alemão tenha problema com o equipamento até o fim da temporada. Na tabela, a polêmica ainda ficou doce para o lado de Sebastian Vettel. Sorte dele e da equipe que viram Lewis Hamilton perder a chance de subir ao pódio por falha da Mercedes. A diferença entre o tedesco e o inglês é de 14 pontos.

Para ver o copo meio cheio, numa visão mais otimista deste Grande Prêmio, Daniel Ricciardo deu o ar da graça ao vencer após ter sofrido com uma colisão no início da corrida. Trouxe pontos para a RBR após o abandono de Verstappen, que não tem boa maré desde quando cutucou os brasileiros com vara curta. Será apenas coincidência?

E o que dizer de Lance Stroll? Quem mais vinha errando, surpreendeu, cativou o público e foi eleito o piloto do dia. Baku não é uma pista fácil, poucos pilotos a conhecem e apesar do traçado estreito, o garoto desencantou e por um erro bobo, perdeu o segundo lugar para Bottas.

Era preciso uma corrida maluca para Massa ter chances reais de vencer até a quebra do amortecedor e finalmente, Fernando Alonso marcou na temporada.

As corridas seguintes mostrarão o desenrolar desta história que além de mostrar imaturidade dos dois pilotos pela provocação de um e o retrucar do outro, também manchou a reputação de Vettel.

Sei que Sebastian Vettel é um bom piloto e tenho provas para tal afirmação: manteve-se firme para conquistar o seu primeiro título; levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima para se tornar o mais jovem tricampeão e até mesmo na adversidade, teve compostura nas provas de 2014. Aquela disputa pelo segundo lugar em Cingapura foi muito boa.

Fórmula 1 e futebol são amores da minha vida e associar um ao outro é muito fácil nesta situação. Numa conversa qualquer de boteco, é claro ver que Zidane é muito mais lembrado pelo erro na Copa de 2006 do que na seleção vitoriosa de 1998. E naquele ano, os azuis eram muito bons de bola. Espero que no final desta temporada, os acertos de Sebastian Vettel se sobressaiam diante de seus erros.

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