Hoje, uma era acabou. O enfraquecimento das equipes garagistas tem como marco a saída total de Ron Dennis das ações do grupo McLaren. Quem viu, viu. Quem não viu, abra uma página no Google. Acredite em mim, vale a pena pesquisar!
Afirmo que Ron Dennis errou, afinal, quem não comete deslizes na vida, seja no âmbito pessoal ou profissional? Mas acredito, que acima de tudo, os acertos de Ron Dennis são maiores e que a sua despedida seja pouco honrosa em relação aos seus méritos.
Nascido e criado em Woking, cidade sede da McLaren, Ron Dennis se formou em engenharia e começou a trabalhar com automobilismo ainda na década de 1960.
Aos 18 anos, Dennis passou a ter como companheiro de trabalho Jochen Rindt.
O trabalho do inglês impressionou tanto o campeão póstumo que quando Rindt saiu da Cooper, levou Dennis com ele para a Brabham.
Ron Dennis permaneceu na equipe Brabham até esta ser vendida e, posteriormente, dedicou-se a outras categorias. Fundou o Project Four Racing e obteve grande sucesso no final da década de 1970. Devido aos méritos, sua equipe ganhou créditos com patrocinadores e se tornou lucrativa.
Com o nome do inglês ainda mais forte, era inegável o retorno de Dennis ao Olimpo do automobilismo. Em 1981, ele voltou à F-1 ao lado de John Banard. E o resto é glória.
De uma equipe que não conquistava uma vitória desde 1977, a McLaren ficou com o 4º lugar no mundial de construtores. Em 1982, Dennis persuadiu o então bicampeão Niki Lauda para voltar às pistas. A equipe venceu o campeonato com o austríaco e teve Alain Prost como vice-campeão três após o retorno do inglês. Nos anos seguintes, o Professor se consagrou campeão duas vezes consecutivas.
A hegemonia da equipe aconteceria no ano de 1988 com 15 vitórias em 16 etapas do calendário. Quer mais? A McLaren venceu o campeonato de construtores com 134 pontos à frente da Ferrari.
Em 1990 e 1991, a McLaren venceu com Ayrton Senna. É certo que a equipe deixou a desejar nos anos seguinte e isto foi o estopim para a saída do tricampeão brasileiro.
Visando o futuro de sucesso, Dennis levou Adrian Newey para Woking e novamente ganhou campeonatos com Mika Hakkinen em 1998 e 1999. A McLaren foi a única equipe que conseguiu incomodar a Ferrari na era Schumacher.
No novo milênio, Dennis trouxe a revelação da Sauber, o jovem Kimi Raikkonen, para integrar a sua equipe. Em 2005, o finlandês foi o vice-campeão da temporada com 112 pontos e sete vitórias.
Mais uma vez, Ron Dennis teve de aturar a competitividade de seus dois pilotos, agora de Fernando Alonso e Lewis Hamilton. Se 1988 e 1989 foram anos difíceis, em 2007 Ron viu o sonho de fazer parte de uma equipe campeã ir por água abaixo com a falta de maturidade dos volantes birutas. O piloto britânico seria campeão no ano seguinte numa batalha aguerrida contra Felipe Massa. Detalhe: Hamilton tinha vínculo com a McLaren desde 1998, quando ele tinha apenas 13 anos. (É possível ver Ron falando sobre Lewis e vice-versa aqui).
Quem vê (ou viu) o estado do McLaren nos últimos anos culpa Ron Dennis sem dó ou piedade. As relações com a Mercedes se tornaram pó e hoje, a equipe padece com a Honda.
Sobre os outros erros apontados em direção a Ron Dennis, eis algumas verdades: Adrian Newey não trabalharia em Woking para sempre; Lewis Hamilton tem sede de títulos e vitórias, claro que ele não passaria o resto de sua carreira para ajudar seus compatriotas a construir a máquina perfeita; apostar na Honda pode ter seus fundamentos. Os japas têm poderio tecnológico, mentes jovens e brilhantes, futuro promissor e a parceria antiga de sucesso.
A F-1 se aproxima do mercado de trabalho neste quesito: ignora o conhecimento dos mais velhos e os subestima. Ron Dennis pode não ser o mais indicado para liderar a equipe na era “moderna”, porém, conhece o automobilismo como poucos.
Em 2016, os sócios da equipe afastaram Ron Dennis contra a sua vontade. Um tanto doloroso para alguém que foi fiel ao seu time, vestiu a camisa e transformou a equipe garagista de Bruce McLaren num conglomerado automotivo que produz tecnologia para o esporte a motor e carros de rua.
10 campeonatos de piloto e 7 de construtores. Trabalhou ao lado de Lauda, Prost, Senna, Hakkinen e Hamilton. Button, Coulthard e Montoya não foram campeões com a McLaren, mas estão no hall dos bons pilotos.
Segundo as minhas contas (já aviso que sou de humanas!), sob o comando de Dennis, a McLaren alcançou o número de 136 pole positions e 145 vitórias.
Se alguém deveria sair da F-1 de cabeça erguida, esta pessoa deveria ser Ron Dennis.
