Com o ambiente majoritariamente masculino da F-1, é comum ouvir aquele famoso clichê de “atrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”. Perdoe-me quem concorda ou vê sentido nesta frase, mas eu não gosto deste teor machista altíssimo, afinal, é só colocar a cabeça para raciocinar e entender que o intuito da mensagem é mostrar que o homo sapiens de cromossomo XX tem de estar atrás do XY. Como se o sucesso do homem fosse o suficiente para a vida de uma mulher.
Sempre admirei histórias de mulheres que rompem com paradigmas da sociedade, que ousam e vão de encontro ao machismo. Coco Chanel, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Josephine Baker e tantas outras que lutaram por seus direitos e não são reconhecidas publicamente.
Se na sociedade a mulher lutou e conseguiu mais espaços, a maior categoria do automobilismo parece um tanto quanto estagnada. Não é segredo para ninguém que a representatividade feminina da F-1 é motivo de vergonha.
Como uma modalidade exclusivamente europeia se transformou em um evento global com atrações internacionais e patrocínio de grandes corporações continua batendo na tecla da presença fixa de grid girls? E ex-dirigente que defendia categoria exclusiva para mulheres? E os pilotos que duvidavam (e provavelmente ainda duvidam) da capacidade de uma piloto no volante? Claro que há jornalistas, mecânicas, engenheiras, líderes de equipe, torcedoras. O número destas participantes aumentou consideravelmente nos últimos anos, mas a dificuldade é dar a oportunidade para entregar carro, macacão e balaclava nas mãos de uma mulher.
A Fórmula 1 tem uma síndrome trágica de não acompanhar o ritmo da transformação social, a exemplo de existir apenas um piloto negro numa modalidade com mais de sessenta anos.
E pela dificuldade em encontrar mulheres em cockpits, a participação feminina vem das esposas destes homens que põem a vida em risco aos domingos. Seja hoje com bolsas de grifes e headphones das escuderias ou nas décadas passadas às beiras de muros dos antigos traçados.
Vistas como objeto decorativo, pouco se conhece sobre a vida de cada uma delas. A discussão em voltas destas esposas – atuais ou do arco da velha – repercute acerca da beleza, a graciosidade. Seria possível imaginar problemas e superações atrás de tanto luxo, glamour e felicidade na cobertura midiática de um Grande Prêmio? Veremos…
O caso da família Hill é diferente. No ano de 1950, Bette conheceu Graham no distrito de Hammersmith. Graham Hill ainda prestava serviços para a marinha de seu país e com amigos em comum na tripulação, os dois engataram um romance. Bette e Graham se casaram em 1955 e tiveram três filhos: Brigitte, Samatha e Damon.
Bette viu seu marido se consagrar campeão nos anos de 1962 e 1968. Também esteve ao lado do Mr. Monaco quando este conquistou o título da Tríplice Coroa, tendo vencido as 24 Horas de Le Mans, 500 Milhas de Indianápolis e seu excelente histórico na F-1.
A vida de glamour, a garrafa de champanhe e a coroa de louros parecem pífias aos meus olhos se comparar ao medo da morte. O automobilismo ainda é perigoso e por décadas foi considerado um esporte sanguinário. Bette poderia finalmente suspirar com a aposentadoria de Graham em 1975 se não fosse pelo acidente aéreo de seu bimotor particular em novembro do mesmo ano.
Graham Hill faleceu aos 46 anos de idade após ter fundado a sua própria equipe, a Embassy Racing. Além de recordes, títulos e saldo devedor, Graham Hill deixou para a esposa o desafio de gerir a própria vida.
Em entrevista, Damon disse que a função de sua mãe na família era deixar tudo conforme o velho Hill desejava. O campeão de 1996 ainda conta que o pai não economizava, vivia aos luxos e deixou enormes dívidas. Com a morte do patriarca, Bette teve de “vestir as calças” e ir à luta para se livrar da penúria. A viúva ainda não tinha conhecido o pior de sua vida. Sem um plano de seguro para o avião, foi necessário vender propriedades para pagar indenizações às famílias das outras vítimas.
A morte de Hill despertou no jovem Damon a vontade de explorar o automobilismo, porém se não fosse pela determinação e apoio de sua mãe, o sonho em seguir o caminho do pai poderia ter ido por água abaixo. Nas próprias palavras de Damon, Bette Hill foi e ainda é muito leal.
Pois bem, sou ser humano do gênero feminino e fui criada por uma mulher, portanto, vi de perto o desafio de desempenhar o papel de pai e mãe ao mesmo tempo. Reconheço o esgotamento físico e mental do que a nossa sociedade chama de “pãe” – outro termo que também não concordo. Sou contra qualquer tipo de fantasia ou romantização para sobrecarregar a mulher numa maternidade solitária em casos de abandonos, o que claramente não foi o caso da família Hill.
Infelizmente, não sei como vive a viúva de Graham. Não há informações e muito menos homenagens pela coragem de reerguer a família e criar seus filhos. Paralelo ao vigor de Bette Hill, há o caso da Yolanda, da Sandra Rosa Madalena, da Carolina, da Eleanor Rigby, da Ana Júlia, da Maria e de tantas outras mulheres da modernidade que são donas de suas próprias vidas e garantem a independência. Como canta (ou encanta) Milton Nascimento, é a história de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta.
