Há vinte e cinco anos, certo rapaz de macacão amarelo e de determinação forte conquistava a sua primeira vitória na Fórmula 1. Neste mesmo dia, em 1992, a incerteza marcava o início da prova mais surpreendente da temporada. Com céu nublado, previsão de chuva e pista seca, a corrida em Spa-Francorchamps parecia prometer briga entre os grandes pilotos. Mal saberia os aficionados pelo esporte que a partir daquele Grande Prêmio, o grid da F1 ganharia mais um: Michael Schumacher.
Nigel Mansell, que havia conquistado seu primeiro e único título quinze dias antes, largava em primeiro lugar, mas logo perdeu a posição para Ayrton Senna. Metros depois, Gerhard Berger se despedia da corrida ao abusar da embreagem.
O clima mais confuso do que o trânsito de São Paulo fez com que os pilotos partissem logo para o pit stop. O pouco de chuva e o traçado úmido foram razões suficientes para a troca de pneus. A liderança alternava entre Senna, Mansell e Patrese, a cada vez que um deles partia para a sua parada. Por volta do 30º giro nada incomodava o trenzinho que puxava o pelotão. Até a pista começar a secar.
Michael Schumacher, que havia estreado na categoria no ano anterior, perdeu o controle, fazendo com que seu bólido deslizasse pela curva de Stavelot. Perspicaz, notou que era hora de parar e imediatamente recorreu aos boxes na 34ª volta. O desempenho de Schumi com pneus de pista seca foi superior em relação a Mansell e Patrese, que estavam logo à frente.
Quando a Williams percebeu a vantagem do alemão em relação aos pneus já era tarde. Com Mansell e Patrese nos boxes, a liderança da prova caiu nas mãos daquele jovem de cabelo cafona e queixo protuberante, que aos 23 anos, confiou em si e soube ser mais veloz do que seus oponentes. Não só na pista, mas em estratégia – uma de suas habilidades.
O campeão da temporada, Nigel Mansell, tentou ultrapassar Schumacher, mas teve problemas com a embreagem. Já Patrese, o máximo que conseguiu foi apanhar a terceira posição de Martin Brundle.
Com quarenta e quatro voltas completas e 36 segundos a frente de Mansell, em 30 de agosto de 1992, Michael Schumacher chegava ao topo do pódio pela primeira vez na Fórmula 1. Dezessete GPs depois da sua estreia, que ocorrera exatamente no ano anterior. Circuito onde, posteriormente, seria conhecido como “dono” de Spa-Francorchamps.
Após o pódio, durante a coletiva de imprensa, Schumi disse que enquanto estava atrás de Senna, Mansell e Patrese, seu sonho de vencer parecia estar distante, mas de repente, a situação mudou e o pit stop aconteceu no momento certo. Autoconfiante e com voz firme também declarou que não venceu por problemas de outros pilotos ou acidentes, mas pelo trabalho feito por ele e pela equipe.
Apesar de jovem, Schumacher descrevia perfeitamente o seu estilo de trabalhar: a sagacidade em momentos decisivos, a união com a equipe, confiança em seus mecânicos, espírito de liderança e surgindo como uma âncora em momentos de adversidade.
Ainda em 1991 causara entusiasmo na Benetton pela ótima estreia no melhor estilo Schumacher: breve, mas, eficaz e destemido.
E não é por acaso que a postura e semblante do alemão chamavam a atenção de todos no paddock. Jo Ramirez, coordenador da McLaren, afirmou que Ayrton Senna via potencial no jovem piloto e o considerava como uma ameaça no grid. O brasileiro puxou o alemão para a conversa, queria que ele fosse mais devagar. Presumo que Schumacher não deu ouvidos.

Vinte e cinco anos depois, o comitê da Fórmula 1 apresentaria Mick Schumacher em uma homenagem singela, mas de valor sentimental forte para os que gostam, ou não, de Michael.
Para muitos é como rever a história da categoria, relembrar os momentos dos anos áureos da Fórmula 1, os carros robustos e por que não, lembrar e admirar a mágica suspensão da Williams FW14 e outros carros fantásticos desta era. Para outros é poder ver, mesmo que seja breve, um pouquinho do que apenas é conhecido de maneira distante.
Não digo que Mick Schumacher dará sequência aos feitos de seu pai. Torço para que ele consiga suas conquistas e trilhe seu próprio caminho, porém é preciso reconhecer o valor sentimental que a Fórmula 1 levou a Bélgica no último domingo. Numa era de cliques, vídeos e posts, os chefões se deram o trabalho de pincelar um pouco de emoção neste cenário atual da modernidade líquida. Emocionante ver que em uma volta atos tão sinceros, desde o detalhe do capacete e o curvar-se diante do bólido, causaram mais comoção e impacto do que odes digitais, infográficos ou qualquer artefato virtual.
Um giro no circuito de Spa-Francorchamps não chega ao tempo total de dois minutos, mas quem vê Mick Schumacher no emblemático carro da Benetton sabe que esta volta tem valor maior do que um quarto de século.



