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Automobilismo com mente aberta

O medo é um benefício

O GP da Bélgica de 2017 foi o lar de mais um capítulo da tensa temporada entre os pilotos da Force India.  Sergio Pérez e Esteban Ocon protagonizaram dois momentos de deixar qualquer cabeça de gasolina sem ar (e de deixar o bom e velho Pastor Maldonado orgulhoso). Logo na largada, na descida pré-Eau Rouge, Perez sofre pressão da Renault de Nico Hulkenberg à sua esquerda e tenta abrir espaço para ser ultrapassado, mas não contava com seu companheiro de equipe à sua direita. O toque ocorreu, e o carro do francês esteve perto de decolar em uma das partes maior perigo no circuito. Mas a confusão não para por aí.

Na volta vinte e nove, os dois bólidos cor-de-rosa se encontram novamente em mais um momento assustador. Novamente no mesmo local, Ocon se posiciona para ultrapassar por dentro seu companheiro, que não pensa o mesmo: O mexicano fecha a porta, há novamente o contato entre as duas máquinas, com Ocon perdendo parte da sua asa e Pérez tendo um pneu furado, outro incidente que poderia gerar uma tragédia. Em suas redes sociais, ambos apresentaram visões diferentes dos incidentes: Esteban foi agressivo e até um pouco exagerado, e disse que seu companheiro de equipe tentou matá-lo; já Checo assumiu a culpa no acidente da primeira volta e se desculpou, porém se mostrou indiferente no segundo contato, alegando não pensar que o francês tentaria fazer a ultrapassagem. Agora a pergunta que não quer calar: De quem é o erro? Ambos compartilham a culpa, porém estamos falando de um piloto que acaba de completar um ano na F1 e um Sergio Pérez que possui um histórico conturbado em suas seis temporadas e meia na categoria.

Em todo esse tempo, Pérez apresentou ser um piloto muito rápido, arrojado, porém um tanto quanto problemático. No treino classificatório do GP de Mônaco 2011, seu ano de estreia, o mexicano teve uma panca e tanto ao perder o controle de sua Sauber na saída do túnel, bater no guard-rail encher de lado a barreira de proteção, assustando os residentes de Monte Carlo e este que vos escreve. O piloto foi levado sem consciência para o hospital, teve uma concussão e uma fratura na perna, e acabou perdendo a corrida. Mas seus dois anos na equipe de Peter Sauber não renderam apenas momentos ruins. Um segundo lugar no maluco GP da Malásia de 2012 fez o circo olhar com bons olhos a temporada do mexicano naquele ano. E que ano! Mais dois pódios (um terceiro lugar no Canadá e um segundo lugar na Itália) renderam a oportunidade de correr pela McLaren e substituir Lewis Hamilton, que saía da equipe para correr pela Mercedes. Essa transferência mudaria o rumo de sua carreira, só não da maneira que Checo esperava.

Sua temporada na McLaren foi um desastre. A equipe que até 2012 brigava por vitórias e pelo título, teve de se contentar em disputar posições no meio do grid. Além disso, Jenson Button, seu companheiro na época, se apresentou várias vezes aborrecido com o comportamento de Checo, e ambos chegaram a travar uma disputa acirrada no GP do Bahrein daquele ano, com direito a toque de rodas e asa quebrada. O 5º lugar na Índia como melhor resultado e suas performances apagadas não convenceram Martin Whitmarsh e a equipe, que não optou por sua sequência para 2014, o que também poderia acabar com as chances do mexicano voltar a correr numa grande equipe.

Em dezembro de 2013, Pérez é contratado pela Force India, e de lá pra cá faz um ótimo trabalho, sendo consistente, conseguindo quatro pódios e chamando a atenção das grandes equipes como antes. Mas novamente, ao ter um piloto que dispute lado a lado o domínio da equipe, seu comportamento se apresenta corajoso e confiante demais. O incidente em Spa é o quarto momento controverso entre Sergio e Ocon na temporada, o que para companheiros de qualquer equipe é inaceitável.

As atitudes de Pérez levam uma máxima que deveria ser levada em consideração à tona: Na fórmula 1, o medo é um benefício, e não uma desvantagem. Pilotos são extremamente autoconfiantes, precisam aceitar o risco, mas o medo garante que pensem duas vezes antes de colocar a sua vida em risco, e principalmente, não prejudicar quem também compartilha do mesmo ofício.

Ao fechar Ocon, Sergio também pode fechar portas para opções futuras, como a Ferrari, onde houve um namoro nas temporadas de 2015 e 2016, porém, como Vettel tem o poder de “escolher” seu companheiro de equipe, o mexicano com certeza não é visto com bons olhos. Há rumores de Perez na Williams, mas considerando o momento da Force India, permanecer ainda parece a escolha certa.

Sobre o futuro da Force India? Só Vijay Mallya dirá. É hora de conscientizar ambos os pilotos da gravidade dos incidentes, e deixar claro de que ocorrências deste tipo não serão toleradas, para o bem de ambos, e para o melhor futuro possível da Equipe.

Laboratório do automobilismo

Nesta quinta-feira, São Paulo amanheceu fria, chuvosa e com protestos nos mais diversos locais da cidade. Máscaras cirúrgicas cobriam rostos de estátuas nos bairros da República, Mooca, Ibirapuera, Jardins, além da distribuição de folhetins explicativos.

A ação de ONGs em prol do meio ambiente ocorre em função do Projeto de Lei 300/2017, de autoria do vereador Milton Leite (DEM). A proposta é adiar para 20 anos o prazo para que os ônibus da cidade utilizem combustíveis limpos.

Ressalto que além das políticas públicas, o mundo do automobilismo também tem discussão, muitas vezes calorosas, em torno de projetos sustentáveis.

No final de julho, a Porsche anunciou que deixará a WEC no final deste ano, apesar de ter contrato em vigência até o fim de 2018. Para aloprar ainda mais os cabeças de gasolina, a casa de Stuttgart (ou Estugarda, como preferir) declarou que disputará a Fórmula E em 2018 e 2019. Assim como a Audi, Jaguar e a BMW, que também participará da disputa de elétricos a partir do ano que vem.

Dançando conforme a música, a Mercedes deixará a DTM (Deutsche Tourenwagen Masters, nome bonito!) e também integrará a Fórmula E. Relançada em 2000, a principal categoria de turismo na Alemanha tinha a Mercedes como participante mais notável.

E por que tantas equipes estariam correndo para a Fórmula E? Por que gostam de uma competição com calendário parecido com a Liga dos Campeões? Para acompanhar o irmão gêmeo perdido do Ángel di Maria, mais conhecido como Sébastian Buemi? Pelo design peculiar dos bólidos?

O chefe de competições e investidor da equipe, Toto Wolff, afirmou em entrevista que deixar a DTM não é fácil, mas que é preciso partir em busca de projetos inovadores. Ora ora, Wolff não poderia ser mais objetivo do que um lide jornalístico nesta declaração.

Ainda no século passado, o carro ganhou valor sentimental. De um objeto de consumo inacessível para o conceito de liberdade dos jovens da geração Beat. Qual exemplo seria melhor do que a maior obra de Kerouac? E no mesmo período surgiu a principal categoria de disputas automobilísticas como laboratório para experimentos. Não foi por mero acaso que tantas empresas passaram (e poucas restaram!) pela F-1.

Mas os tempos modernos são diferentes. A corrida das grandes montadoras para a Fórmula E vai ao encontro das novas resoluções europeias. A partir de 2030 será proibido produzir um carro de combustão na Alemanha e em 2050 será impossível rodar em um no país. Já o Reino Unido banirá o carro a gasolina e diesel em 2040.

Não são medidas solitárias e únicas. É uma preocupação consistente no continente europeu para reduzir as emissões de gases poluentes, uma exigência do pacto firmado na Conferência do Clima em Paris no ano de 2015. Logo, a pressa para alcançar estes novos planos refletem direto nas competições automobilísticas, uma vez que o esporte contribui com o desenvolvimento da tecnologia das fábricas.

Claro que outras categorias sem motriz elétrica como a Fórmula 1, Indy, Rally e Turismo não irão acabar abruptamente. Muito menos os carros de rua. O carro elétrico tem custo maior do que a máquina de combustão e será um processo gradual até que todo o mercado internacional consiga estabelecer este novo padrão. Apesar de novos lançamentos em salões internacionais de carros a gasolina ou diesel surgirem, uma hora ou outra as fábricas terão que apostar numa só carta.

Apenas em três temporadas a Fórmula E uniu grandes montadoras num piscar de olhos. Não é pela beleza, pelo troféu cômico ou ruído azucrinante dos carros, mas por pura e mera necessidade de aplicar novos conceitos de mercado. O híbrido é o amanhã. Clichê ou não, o amanhã já começou.

Academia de campeões

Em comparação a F-1 que assisto desde sempre, comecei a assistir a Fórmula 3 há pouco mais de um mês.

Descobri que a Fórmula 3 é um berço de ouro do automobilismo. Se a Fórmula 1 não for o futuro do piloto, ele se encaixará em alguma outra categoria, seja Indy, WEC, etc e tal.

São meninos jovens e com muita vontade de aprender. Há competitividade, afinal é uma competição intercontinental, mas acredito que o aperfeiçoamento das habilidades é o mor que leva os garotos.

E não é que houve uma espécie de identificação por minha parte? Numa boa analogia, este blog para mim é a F-3 para os garotos. Assim como eles, quero ir além da minha aptidão. Decidi me aventurar um pouco além da F1 e aprender um pouco mais sobre as outras categorias. Quem sabe daqui a alguns anos eu posso me gabar e dizer que vi o mais novo campeão nos tempos da F3?

Pois bem, não havia lugar melhor para a Fórmula 3. Spa-Francorchamps não é apenas um circuito, é um templo do automobilismo e os volantes surpreenderam em cada corrida.

Ainda na sexta-feira, Lando Norris (Carlin) venceu a 16ª etapa, largando do primeiro lugar.
Em uma largada emocionante, o piloto de Bristol se manteve em primeiro lugar e se defendeu contra as tentativas de ultrapassagem de Callum Ilott, da Prema Powerteam. Maximilian Günther (Prema Powerteam), vice-campeão da temporada passada, largou em 4º e voou alcançando duas posições.

Houve confusão na disputa pelas primeiras posições e a vítima foi Jake Hughes (Hitech), que saiu da pista por um toque – como um sanduíche, Ilott por dentro e Günther por fora. O carro de segurança foi acionado.

Com a bandeira verde tremendo na mão do fiscal, a disputa era da turma do fundão. Harrison Newey (Van Amersfoort Racing), Ferdinand Habsburg (Carlin) e Mick Schumacher (Prema Powerteam) brigavam pela 7ª posição. O inglês se deu bem e conquistou o que almejava.

Em uma das curvas do circuito, Nikita Mazepin (Hitech) tirou a segunda posição de Maximilian Günther enquanto Norris, líder da prova, abria vantagem de 1.3s (acredite na F3, é muita coisa!).

Nas voltas finais, Schumacher, que largou em 14º, ultrapassou Ralf Aron em uma disputa roda com roda para conquistar a 6º lugar.  Mazepin começou a se aproximar de Norris e como resposta, o inglês voltou a abrir vantagem para vencer a sua quarta prova na temporada.

No segundo lugar e como debutante, Nikita Mazepin, do programa Junior da Force India, foi ao pódio pela primeira vez na F3. Günther, atual líder do campeonato, chegou em 3°.

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Fonte: F3

Na 17ª etapa, o pole Lando Norris colidiu contra Guanyu Zhou (Prema Powerteam) na reta Kemmel e os dois tiveram de abandonar a prova. Callum Ilott assumiu a liderança por uma volta até perder a primeira posição para seu companheiro de equipe, Maximilian Günther.

Uma intensa batalha começou. Jake Hughes, Jehan Daruvala (Carlin) e Ferdinand Habsburg disputavam a segunda posição, de Ilott, lado a lado. Entre os quatro, Hughes se deu melhor e o indiano da equipe Carlin abandonou a prova.

Neste contratempo, Pedro Piquet (Van Amersfoort Racing), que havia largado em 10º e com bom ritmo se manteve em 7º. O brasileiro foi atingido por Ralf Aron (Hitech) e teve de abandonar a prova. Logo atrás, Nikita Mazepin ultrapassou Mick Schumacher para conquistar a oitava posição.

No final da prova, a vantagem entre os quatro primeiros colocados diminuía a cada volta. Jake Hughes, que conquistou a terceira posição no início, foi ultrapassado por Ferdinand Habsburg. E assim, o neto do último príncipe da Áustria não tardou muito até alcançar Maximilian Günther e vencer pela primeira vez na categoria.

Ao lado de Habsburg no pódio, esteve também o sueco Joel Eriksson (Motorpark) que teve bom ritmo numa corrida de recuperação, largando em 12° no grid. Günther novamente terminou a prova em 3º lugar.

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Fonte: F3

Pela última etapa na Bélgica, três pilotos da Prema Powerteam largaram nas primeiras posições: Callum Ilott, Guany Zhou e Maximilian Günther. No treino classificatório, Lando Norris marcou o melhor tempo, porém teve de cumprir uma punição pelo toque no bólido de Zhou na prova anterior e largou em 4º.

Na largada, a primeira fila se manteve por alguns metros de Spa-Francorchamps até Zhou assumir a liderança. Maximilian Günther e Lando Norris também passaram à frente de Callum Ilott. Na volta seguinte, Norris pulou para a segunda posição enquanto Zhou abria 1.3s de vantagem.

Aproximando-se do pelotão, Jake Hughes colidiu em Günther e o alemão teve de dar adeus para a prova. O incidente trouxe para a pista o carro de segurança.

Na relargada, em uma boa ultrapassagem Lando Norris passou por Zhou e defendeu a liderança contra as investidas de retomada por parte do chinês. O inglês acelerou, abriu vantagem e voou sem dificuldades até receber a bandeirada final.

Largando do décimo lugar, Joel Eriksson novamente teve um bom ritmo para ultrapassar seus rivais em pista e terminar a prova à frente de Zhou.

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Fonte: F3

Como destaque na Bélgica, o desempenho de Lando Norris ao conquistar duas vitórias e fazer o melhor tempo nos treinos classificatórios justificam a esperança que a McLaren deposita no jovem inglês.

Apesar de não ter vencido nenhuma prova na Bélgica, Maximilian Günther, visto como favorito ao título, é líder do campeonato com 266 pontos. Norris aparece em segundo lugar na tabela com 248.

A batalha pelo campeonato da Fórmula 3 europeia volta entre os dias 19 e 20 de agosto em Zandvoort na Holanda.

Como este foi o primeiro texto sobre a F3, decidi deixar uma consideração positiva e negativa.

Ponto positivo: Estou muito feliz com o desempenho do Lando Norris nos testes da Hungria. Após vencer duas vezes em Spa, ele marcou o segundo melhor tempo do dia, ficando atrás apenas de Sebastian Vettel.

Ponto negativo: Assumo que fiquei biruta com as minhas anotações. Eu, admiradora do heptacampeão da F-1, surtei todas as vezes que escrevi M. Schumacher no caderno. Espero me adaptar a criar a imagem do filho e não do pai todas as vezes que citar Mick em textos… Chame o Tom Cruise, porque para mim parece uma missão impossível.

Para inglês ver

Se havia um lugar perfeito para o crescimento de Lewis Hamilton na temporada, tinha de ser em Silverstone. Desde a punição para Valtteri Bottas, largada de Vettel com problemas no freio, o final de semana para o inglês foi perfeito, além do desempenho sem erros.

A largada foi abortada quando o bólido de Jolyon Palmer parou ainda na volta de apresentação. Quando as luzes vermelhas apagaram e a verde surgiu, Lewis Hamilton segurou a ponta, Räikkönen veio em segundo e Verstappen ultrapassou Vettel, conquistando o terceiro lugar.

Na segunda volta, o carro de segurança foi acionado. Novamente Daniil Kvyat resolveu aprontar. O russo bateu como um torpedo no carro de Carlos Sainz e o espanhol teve de abandonar a prova. Mais um erro do piloto da Toro Rosso que foi campeão da GP3 em 2013, chegou à F-1 em 2014 e no ano seguinte substituiu Sebastian Vettel na RBR. Mais difícil do que explicar a sua situação para os chefes de equipe, deve ser o almoço de domingo com a família da namorada (Para quem não sabe, Daniil Kvyat namora Kelly Piquet, filha do tricampeão Nelson Piquet).

Após a relargada, Sebastian Vettel e Max Verstappen disputaram posição, mas o holandês saiu favorecido da batalha e ainda foi ousado ao dizer que o tetracampeão estava brincando de carrinho de bate-bate. Por outro lado, Vettel reclamou que Max não permanecia na mesma linha na hora de defender a sua posição. Crítica feita por diversos pilotos desde o ano passado.

Verstappen atrapalhou os planos dos italianos. A Ferrari mudou a estratégia e optou pelo pitstop de Vettel na 19ª volta para assegurar o pódio e impedir a dobradinha da Mercedes. Não por coincidência, Verstappen entrou na 20ª. Undercut bem sucedido do ferrarista que conseguiu deixar Verstappen atrás de Nico Hulkenberg, da Renault.

Com Lewis Hamilton liderando a prova com 15s de vantagem à Räikkönen, a Mercedes mostrou sua superioridade em retas, curvas velozes e com a temperatura ideal para que a equipe alemã não sofresse com os pneus, o que aconteceu com os ferraristas no final da corrida.

Lá atrás, Fernando Alonso abandonou a prova na volta de número 35. Daniel Ricciardo, da RBR, dava show de pilotagem ultrapassando os demais em pista, em uma só volta deixou Perez, Ocon e Magnussen para trás. O australiano largou em penúltimo e logo alcançava o top 10.

Na 43ª volta, Bottas se aproximou de Vettel. Sebastian se defendeu, segurou até travar o pneu dianteiro. Sem chances para o alemão, o finlandês voou baixou e conquistou a segunda posição. Não tardou para Vettel reclamar da condição dos pneus e as famosas bolhas que o atrapalharam.

E mais rápido do que o rádio de Vettel, foi a deterioração do pneu dianteiro de Raikkonen na prova. Kimi teve de ir aos boxes devido aos pneus em frangalhos. Com o problema de Kimi, o terceiro lugar caiu como uma benção para Sebastian Vettel. Mas a alegria do líder do campeonato não durou por muito tempo, na volta seguinte o seu pneu dianteiro esquerdo também explodiu.

Não é por pura coincidência que os dois pilotos da Ferrari tenham sofrido com os pneus no circuito inglês. A pista abrasiva, o composto mais duro (diferente dos anos anteriores) e as curvas velozes de Silverstone, ainda mais rápidas com a nova configuração dos carros, foram as razões para a deterioração forte nos bólidos vermelhos. Vale a pena ressaltar que tanto Kimi como Sebastian estavam com composto macio, uma vez que a Ferrari apresenta melhores resultados com supermacios.

Passando na bandeira quadriculada com muita folga Lewis Hamilton conquistou a vitória. Para fechar o pódio, Bottas em segundo e Raikkonen em terceiro. Vettel, que se arrastou até aos boxes, ficou apenas com o 7° lugar.

Com a vitória em casa, Hamilton conquistou mais um recorde por vencer quatro vezes em seguida, assim como Jim Clark, lenda das pistas na década de 1960.

O inglês também pode alcançar outra marca na Hungria, próxima etapa do calendário. Com a pole em Silvestone, Hamilton conquistou sua 67º pole position na carreira e com mais uma, chega ao recorde de 68 poles, o mesmo número de Michael Schumacher.

Se no texto do GP anterior, eu disse que Bottas poderia chamar atenção por breves momentos. Retiro o que disse. No início da temporada, a Ferrari foi privilegiada com os circuitos de temperaturas altas e pneus supermacios. Com o crescimento da Mercedes no campeonato, acredito que Valtteri Bottas pode apertar o calo tanto de Vettel quanto de Hamilton.

Para comprovar o que disse, o finlandês se aproxima e está em terceiro lugar, 22 pontos atrás de Hamilton.

Não acredito que esteja mais fácil para a Ferrari ou para a Mercedes. As duas equipes têm grandes chances para lutar e apesar deste ocorrido no final da prova, Sebastian Vettel ainda se mostrou otimista. O alemão tem consciência de que a Ferrari precisa melhorar, atualizar o carro e encontrar maneiras para crescer junto com a rival. Não digo atrapalhar porque gosto de equilíbrio em dispustas.

O traçado travado de Hungaroring com curvas de baixa velocidade favorece a Ferrari. Por outro lado, Lewis Hamilton é quem mais venceu em Budapeste por cinco vezes, já Vettel venceu apenas uma vez na Hungria.

O alemão, totalmente azarado em Silverstone, em 2010 – ano de seu primeiro título – terminou em 4º no Canadá e em 7ª na terra da rainha. Os mesmos resultados da temporada atual. Será apenas coincidência ou a sorte jogará ao favor de Sebastian Vettel?

Estamos na metade da temporada. Faltam 10 corridas para o final do campeonato. Apenas um ponto separa o líder do vice. Alguém poderia imaginar um cenário melhor?

Boa safra

Momentos antes do GP da Áustria, o campeão de 1992, Nigel Mansell publicou em seu perfil oficial do Twitter que esperava por uma largada cheia de erros. É certo que o inglês se redimiu ao politicamente correto e voltou atrás dizendo que esperava por bons momentos. Com dons proféticos ou não, o Leão acertou e a largada foi confusa para a turminha de trás.

No ano passado, Vettel chamou de torpedo, mas agora a denominação é boliche. Como um strike, Daniil Kvyat bateu em Fernando Alonso e sob o efeito dominó, o espanhol tocou em Max Verstappen.

Se Verstappen está numa onda de má sorte, ainda pode se gabar e explicar a Helmut Marko que seus cinco abandonos em sete provas não foram ocasionados por falhas que comprometem o seu desempenho profissional. Já Kvyat entrou numa fase de declínio constante. Desde o ano passado, quando foi rebaixado e voltou para a STR, o russo tem desempenho péssimo.

Lá na frente, Bottas se manteve em primeiro, seguido de Vettel e Ricciardo, que ultrapassou Raikkonen e ficou com terceiro lugar.

E mais rápido que o erro cometido por Kvyat, foi a reação de Bottas. Houve investigação para saber se o finlandês havia queimado a largada. A FIA apurou e provou que a movimentação foi normal. Primeiramente, eu fiquei incrédula, mas com o teste de reação que um bendito cujo da internet criou, compreendi que é possível atingir a mesma marca de Bottas ou ainda superá-lo.

E se Bottas chamou atenção com rápida reação, impressionante mesmo foi o desempenho da Haas no início da prova com Grosjean pulando de sexto para quarto. O francês conseguiu boas disputas com Sérgio Perez, que não pode contar com o desempenho esperado da Force India.

Na primeira parte da corrida, Bottas conseguia abrir quase 6 segundos de vantagem sobre Vettel. E Lewis Hamilton, que largou em 8º lugar por causa de uma punição, ultrapassava os demais na pista e conquistava o 5º lugar. Já no fim do grid, apesar do apagão da Williams no sábado, Felipe Massa pulou de 17° para 9°.

Na volta de número 15, Lewis Hamilton, pelo rádio, reclamava que seu bólido saía de traseira. Com a temperatura da pista oscilando entre 48 e 50 graus, seria difícil pilotar sofrendo com desgaste de pneu. A previsão da Pirelli era que o pit stop acontecesse entre a 18ª e a 20ª volta, mas o inglês só parou na 32ª e optou pelos supermacios. A mesma escolha de Vettel.

Valtteri Bottas, líder da prova, parou apenas na 41ª e voltou atrás de seu compatriota, Kimi Raikkonen. Sabendo do histórico entre os dois, fiquei apreensiva por algum toque, porém não havia muito que fazer. Raikkonen tentou, segurou e se defendeu, mas com pneus velhos Bottas voou e voltou à primeira posição. E o finlandês da Ferrari foi direto para o pit stop.

A partir deste momento, a corrida se tornou mais emocionante. Hamilton lutava para ultrapassar Ricciardo para conquistar o terceiro lugar. Vettel, em segundo lugar, se aproximava de Bottas. Ademais, a luta pelo primeiro lugar do pelotão demonstrava claramente a potência das equipes concorrentes ao título. Vettel se aproximava de Bottas nas curvas, uma vez que a Ferrari tinha tempos melhores no miolo de Spielberg, mas perdia força nas retas em comparação ao motor da Mercedes.

As voltas finais foram belíssimas, com desempenho espetacular e resultado surpreendente. Em 2003 a volta mais rápida de Spielberg era a marca de 1m08s337 de Michael Schumacher, ainda nos tempos do V10. A Áustria voltou ao calendário do circo em 2014 e ninguém havia quebrado este registro, nem mesmo ter alcançado a casa de 1m08s.

Alternando a vez de cada um, ora Bottas, ora Vettel e ora Hamilton, eles diminuíam tempo enquanto batalhavam por ultrapassagens. Vettel abaixou para 1m07s713, depois Kimi com 1m07s511 e por fim, Hamilton atingiu a proeza de voar baixo marcando o tempo de 1m07s411. Adendo importantíssimo: o inglês fez o seu tempo na volta de número 70, com pneus velhos, pouco combustível e pista emborrachada, completamente suja.

Que a temporada da F-1 de 2017 está muito mais competitiva em relação aos anos anteriores, eu sei. Que os carros são mais rápidos, charmosos e maiores também. Mas não é só de bólidos e da tecnologia avançada que vive a categoria. O talento de cada um em pista indica boa safra de pilotos e mostra como automobilismo não é apenas show de ultrapassagens ou acidentes, mas sim táticas, conhecimento de pista, experiência e muita técnica para atacar, defender, economizar combustível e pneus ao mesmo tempo. Quem é que só aperta botão mesmo?
Show finalizado, bandeira quadriculada à mostra. Valtteri Bottas voltou a vencer pela segunda vez no ano. Isto indica que o plano B da Mercedes dá certo. Uma verdadeira faca de dois gumes. Por um lado, Bottas ajudou Hamilton evitando que Sebastian Vettel abrisse ainda mais vantagem sobre o inglês. Por outro, Bottas mostrou que pode chamar atenção na pista e ser protagonista, mesmo que seja breve.

Vettel abriu seis pontos de diferença na Áustria e agora soma 171 pontos na tabela. Hamilton logo atrás, chega com 151 pontos. Caso o inglês vença em casa alcançará cinco vitórias em Silverstone, o mesmo número do maior vencedor da pista, Alain Prost. Vettel ergueu o troféu no lugar mais alto do pódio em território britânico apenas uma vez.

A corrida na Áustria confirmou que a temporada deste ano é realmente fantástica. Ricciardo subiu ao pódio pela quinta vez. Nove corridas, quatro vencedores. Novamente pódio com pilotos de equipes diferentes. Acredite se quiser, Palmer terminou a frente de Hulkenberg. Quer mais?

Com os holofotes voltados para Hamilton e Vettel, a batalha pelo campeonato continua na próxima semana na Inglaterra. Se a redenção de Lewis Hamilton pode acontecer em sua terra natal? Talvez. Silverstone é uma caixinha de surpresas como a atual temporada da F-1. As curvas velozes e retas podem ajudar a Mercedes, mas a pista abrasiva e a temperatura do verão europeu são fatores que favorecem a Ferrari. Totalmente imprevisível!

A F-1 não precisava voltar à década de 1980 para ser emocionante. Há cinco anos, dois bicampeões lutavam para ser o mais jovem tricampeão da história da categoria. A curva daquela temporada está logo ali para ser admirada e usada como exemplo. E se 2012 foi um campeonato icônico, por que 2017 não seria?

O cavaleiro

Hoje, uma era acabou. O enfraquecimento das equipes garagistas tem como marco a saída total de Ron Dennis das ações do grupo McLaren. Quem viu, viu. Quem não viu, abra uma página no Google. Acredite em mim, vale a pena pesquisar!

Afirmo que Ron Dennis errou, afinal, quem não comete deslizes na vida, seja no âmbito pessoal ou profissional? Mas acredito, que acima de tudo, os acertos de Ron Dennis são maiores e que a sua despedida seja pouco honrosa em relação aos seus méritos.

Nascido e criado em Woking, cidade sede da McLaren, Ron Dennis se formou em engenharia e começou a trabalhar com automobilismo ainda na década de 1960.
Aos 18 anos, Dennis passou a ter como companheiro de trabalho Jochen Rindt.
O trabalho do inglês impressionou tanto o campeão póstumo que quando Rindt saiu da Cooper, levou Dennis com ele para a Brabham.

Ron Dennis permaneceu na equipe Brabham até esta ser vendida e, posteriormente, dedicou-se a outras categorias. Fundou o Project Four Racing e obteve grande sucesso no final da década de 1970. Devido aos méritos, sua equipe ganhou créditos com patrocinadores e se tornou lucrativa.

Com o nome do inglês ainda mais forte, era inegável o retorno de Dennis ao Olimpo do automobilismo. Em 1981, ele voltou à F-1 ao lado de John Banard. E o resto é glória.

De uma equipe que não conquistava uma vitória desde 1977, a McLaren ficou com o 4º lugar no mundial de construtores. Em 1982, Dennis persuadiu o então bicampeão Niki Lauda para voltar às pistas. A equipe venceu o campeonato com o austríaco e teve Alain Prost como vice-campeão três após o retorno do inglês. Nos anos seguintes, o Professor se consagrou campeão duas vezes consecutivas.

A hegemonia da equipe aconteceria no ano de 1988 com 15 vitórias em 16 etapas do calendário. Quer mais? A McLaren venceu o campeonato de construtores com 134 pontos à frente da Ferrari.

Em 1990 e 1991, a McLaren venceu com Ayrton Senna. É certo que a equipe deixou a desejar nos anos seguinte e isto foi o estopim para a saída do tricampeão brasileiro.

Visando o futuro de sucesso, Dennis levou Adrian Newey para Woking e novamente ganhou campeonatos com Mika Hakkinen em 1998 e 1999. A McLaren foi a única equipe que conseguiu incomodar a Ferrari na era Schumacher.

No novo milênio, Dennis trouxe a revelação da Sauber, o jovem Kimi Raikkonen, para integrar a sua equipe. Em 2005, o finlandês foi o vice-campeão da temporada com 112 pontos e sete vitórias.

Mais uma vez, Ron Dennis teve de aturar a competitividade de seus dois pilotos, agora de Fernando Alonso e Lewis Hamilton. Se 1988 e 1989 foram anos difíceis, em 2007 Ron viu o sonho de fazer parte de uma equipe campeã ir por água abaixo com a falta de maturidade dos volantes birutas. O piloto britânico seria campeão no ano seguinte numa batalha aguerrida contra Felipe Massa. Detalhe: Hamilton tinha vínculo com a McLaren desde 1998, quando ele tinha apenas 13 anos. (É possível ver Ron falando sobre Lewis e vice-versa aqui).

Quem vê (ou viu) o estado do McLaren nos últimos anos culpa Ron Dennis sem dó ou piedade. As relações com a Mercedes se tornaram pó e hoje, a equipe padece com a Honda.

Sobre os outros erros apontados em direção a Ron Dennis, eis algumas verdades: Adrian Newey não trabalharia em Woking para sempre; Lewis Hamilton tem sede de títulos e vitórias, claro que ele não passaria o resto de sua carreira para ajudar seus compatriotas a construir a máquina perfeita; apostar na Honda pode ter seus fundamentos. Os japas têm poderio tecnológico, mentes jovens e brilhantes, futuro promissor e a parceria antiga de sucesso.

A F-1 se aproxima do mercado de trabalho neste quesito: ignora o conhecimento dos mais velhos e os subestima. Ron Dennis pode não ser o mais indicado para liderar a equipe na era “moderna”, porém, conhece o automobilismo como poucos.

Em 2016, os sócios da equipe afastaram Ron Dennis contra a sua vontade. Um tanto doloroso para alguém que foi fiel ao seu time, vestiu a camisa e transformou a equipe garagista de Bruce McLaren num conglomerado automotivo que produz tecnologia para o esporte a motor e carros de rua.

10 campeonatos de piloto e 7 de construtores. Trabalhou ao lado de Lauda, Prost, Senna, Hakkinen e Hamilton. Button, Coulthard e Montoya não foram campeões com a McLaren, mas estão no hall dos bons pilotos.

Segundo as minhas contas (já aviso que sou de humanas!), sob o comando de Dennis, a McLaren alcançou o número de 136 pole positions e 145 vitórias.

Se alguém deveria sair da F-1 de cabeça erguida, esta pessoa deveria ser Ron Dennis.

Quando a obsessão se torna descontrole

Antes de entrarmos no assunto principal, quero deixar claro que esse texto não tem a intenção de defender nem atacar os pilotos envolvidos na polêmica de Baku.

A temporada de 2017 da Fórmula 1 marca a volta de Sebastian Vettel ao protagonismo da categoria. Após três anos assistindo o domínio total da Mercedes, Vettel deposita suas esperanças em seu bólido vermelho para um possível pentacampeonato. Mas, junto com as boas atuações, o alemão volta a apresentar algo que assombra sua carreira: O temperamento.

Seu mau comportamento em Baku reabriu a discussão sobre o quão aceitável são tais atos. Não é de hoje que vemos o tetracampeão se deixar levar pelo calor do momento: Desde a batida da inexperiente promessa em Mark Webber no GP de Fuji de 2007 ao famoso episódio da última edição do GP do México, são várias as situações em que vimos Vettel perder o controle de seus atos.

Não há dúvidas de que estamos presenciando uma das lendas do esporte escrevendo sua história, mas assim como vários outros grandes nomes, a obsessão de Seb em ser o melhor supera os limites éticos do esporte em algumas ocasiões. Dito isso, não é a primeira e provavelmente não será a última vez em que veremos este tipo de atitude no circo da F1.

Nos últimos trinta anos de Fórmula 1, vimos Alain Prost se aproveitar da liderança de Jean-Marie Balestre em episódios como o GP do Japão de 1989, que Ayrton Senna venceu após sobreviver ao choque provocado pelo piloto francês, mas que acabou sendo desclassificado por “cortar caminho”, tornando Alain tricampeão mundial com uma corrida de antecedência. Um ano depois, vimos Ayrton Senna se vingar do ocorrido, no mesmo palco, quando sua McLaren colidiu com Prost, agora piloto da Ferrari na primeira curva, fazendo com que desta vez, o brasileiro ficasse com a coroa.

Michael Schumacher também sentiu o sangue subir a cabeça ao agir em desespero em jerez, no ano de 1997. Ao ver seu rival pelo título Jacque Villeneuve ameaçar uma ultrapassagem, schumi jogou sua Ferrari em direção ao canadense numa manobra suicida que acabou sendo malsucedida, deixando o alemão fora da corrida e Jacque tranquilo para caminhar em direção a seu primeiro e único título mundial.

Mais recentemente, Fernando Alonso se envolveu em um dos maiores escândalos da categoria na estreia da etapa de Cingapura, em 2008. Após uma batida proposital de seu companheiro de equipe Nelsinho Piquet, Alonso se aproveitou de ter parado cedo e tomou a ponta no safety car, conquistando sua única vitória na temporada. Após descoberta a trapaça, a equipe Renault foi multada e o chefe de equipe da época, Flavio Briatore, banido do esporte.

Quatro pilotos, quatro atos antidesportivos, e lições a serem aprendidas. A semelhança entre eles? Todos são pilotos de renome, conquistaram títulos, estabeleceram suas marcas e são aclamados pela comunidade.

Vettel ainda terá muito a conquistar em seus próximos anos: Títulos, vitórias, mas acima de tudo, experiência. Após seu quarto título, Seb foi perguntado sobre o que achava de ser um exemplo para as crianças. Sua resposta?  “É estranho. Eu ainda me sinto uma criança.” Quase quatro anos depois, é hora de provar para o povo que seus feitos são maiores que qualquer erro, e que, acima de qualquer obsessão, ainda existe uma criança vivendo o seu próprio sonho.

 

Os volantes mais birutas do mundo

Pelo título, é possível notar que a pessoa que vos escreve é apaixonada por desenhos animados. Uso diversas animações para explicar minhas opiniões e farei isto agora. No filme Ratatouille da Pixar, o crítico do jornal é exigente demais com os restaurantes por adorar a gastronomia. Neste caso, eu sou o Anton Ego e Vettel, a gastronomia. Compreendem?

Ainda é muito cedo para cantar a bola do pentacampeonato ou de um possível tetra. A Fórmula 1 em 2017 é tão misteriosa e apta para nos surpreender em razão de sua competitividade e certo equilíbrio entre as maiores equipes montadoras do grid. O crescimento da Ferrari, em comparação ao ano passado, é brilhante. A Mercedes continua grande e poderosa. Se a temporada até agora vinha sendo disputada de uma maneira bela e limpa, o GP do Azerbaijão nos espantou – agora de forma negativa.

No trânsito casual das grandes cidades, o motorista que colide o carro da frente é considerado culpado. Logo, Vettel errou em Baku.

Hamilton, como líder da prova, pode e deve mandar o ritmo na corrida sob vigilância do Safety Car. Se Hamilton houvesse desacelerado (FIA já comprovou que não houve frenagem), ele ainda estaria em seu direito constatado no regulamento. No mínimo, Vettel deveria ter prestado atenção.

O segundo toque do alemão agravou a situação. Bater, propositalmente, em Hamilton foi ignorância. Voltou a ser aquele moleque que bate em Webber e ainda se livra da culpa. A diferença entre aquele Vettel e este de agora é a somatória de 45 vitórias e 4 títulos. Este não é um comportamento esperado de qualquer piloto da categoria mor do automobilismo, quem dirá de um tetracampeão.

Medo não justifica ações antidesportivas. A Ferrari sentiu o peso da corrida do Canadá e a possível derrota em Baku. Além da futura troca do turbocompreensor que será convertida em punição. Não é possível que o alemão tenha problema com o equipamento até o fim da temporada. Na tabela, a polêmica ainda ficou doce para o lado de Sebastian Vettel. Sorte dele e da equipe que viram Lewis Hamilton perder a chance de subir ao pódio por falha da Mercedes. A diferença entre o tedesco e o inglês é de 14 pontos.

Para ver o copo meio cheio, numa visão mais otimista deste Grande Prêmio, Daniel Ricciardo deu o ar da graça ao vencer após ter sofrido com uma colisão no início da corrida. Trouxe pontos para a RBR após o abandono de Verstappen, que não tem boa maré desde quando cutucou os brasileiros com vara curta. Será apenas coincidência?

E o que dizer de Lance Stroll? Quem mais vinha errando, surpreendeu, cativou o público e foi eleito o piloto do dia. Baku não é uma pista fácil, poucos pilotos a conhecem e apesar do traçado estreito, o garoto desencantou e por um erro bobo, perdeu o segundo lugar para Bottas.

Era preciso uma corrida maluca para Massa ter chances reais de vencer até a quebra do amortecedor e finalmente, Fernando Alonso marcou na temporada.

As corridas seguintes mostrarão o desenrolar desta história que além de mostrar imaturidade dos dois pilotos pela provocação de um e o retrucar do outro, também manchou a reputação de Vettel.

Sei que Sebastian Vettel é um bom piloto e tenho provas para tal afirmação: manteve-se firme para conquistar o seu primeiro título; levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima para se tornar o mais jovem tricampeão e até mesmo na adversidade, teve compostura nas provas de 2014. Aquela disputa pelo segundo lugar em Cingapura foi muito boa.

Fórmula 1 e futebol são amores da minha vida e associar um ao outro é muito fácil nesta situação. Numa conversa qualquer de boteco, é claro ver que Zidane é muito mais lembrado pelo erro na Copa de 2006 do que na seleção vitoriosa de 1998. E naquele ano, os azuis eram muito bons de bola. Espero que no final desta temporada, os acertos de Sebastian Vettel se sobressaiam diante de seus erros.

Porque eu sei que é amor

Amor não pode ser representado por tremores na mão. Não é a troca de olhares. Muito menos as loucas fantasias ou o gaguejar entre uma palavra e outra. Como diz uma grande amiga, essas sensações poderiam ser de algum tipo de nervosismo, como o suor frio em uma apresentação de seminário, ou pressão baixa. Definitivamente, amor não é nada disso que os filmes de Hollywood costumam nos contar.

Ontem, assim como todos os petrolheads, também me emocionei com a imagem de Lewis Hamilton recebendo o capacete de Ayrton Senna. Talvez eu tenha chorado demais por ser demasiadamente sensível e por ter nascido com o extremo azar de ter ascendente em Câncer. Enquanto muitos racionalizam, eu apenas sinto e incrivelmente, acredito que a grande maioria das minhas lágrimas esteja relacionada a este circo injusto, corrupto, porém apaixonante da Fórmula 1.

Nós, seres humanos, temos uma necessidade quase vital de se inspirar em alguém com feitos extraordinários. Do cinema, das artes plásticas, da dança, do teatro, da música, da literatura e claro, do esporte. Quando as vidas de um fã e do ídolo se misturam é algo tão lindo e pueril como algodão doce nas festas da pré-escola. E por falar em creche, infância é uma fase da vida em que muitas pessoas desenvolvem seus interesses, escolhem alguém para admirar e vivem com este carinho pelo resto da vida. E a vida do pequeno garoto do subúrbio da Inglaterra não foi diferente.

Aos 11 anos, Lewis perdeu o seu ídolo, mas a inspiração persistiu. O pequeno prodígio se tornou tricampeão assim como Ayrton e em um circuito com uma curva batizada de Senna, o garoto suburbano atingiu a mesma marca do brasileiro: 65 pole positions.

Após o treino classificatório, Lewis Hamilton recebeu o capacete de Ayrton Senna da temporada de 1987. O inglês estava segurando uma garrafa e pelo nervosismo, o objeto foi de encontro ao chão. Lewis Hamilton abraçou, beijou, chorou e não largou o casco amarelo. E apesar de seus três títulos, 65 pole positions e 56 vitórias, Hamilton ergueu o presente como se fosse o maior de todos os prêmios e troféus recebidos em sua carreira. Apesar de todas as diferenças entre o piloto e eu, talvez eu consiga encontrar uma possível resposta para tamanha emoção.

Assistir Fórmula 1 não é apenas sentar em frente à televisão e ver carros, passando, batendo ou rodando em uma pista. É muito além. A F-1 tem o imenso poder de me levar a um passeio da escola onde eu sabia o número de títulos e vitórias do Ayrton Senna quando o instrutor do museu perguntou a classe quem era o piloto de macacão branco e vermelho na parede. E no mesmo passeio, eu fui a única garota a brincar no autorama e não tive a vergonha de escolher o carro vermelho para tentar imitar o meu ídolo, então piloto da Ferrari. Era 2004, ano do hepta, e eu não queria saber das outras brincadeiras quando eu podia sentir um pouco da competitividade que o meu herói demonstrava tão bem quando pilotava.

Diferente de Hamilton, eu não sou boa nas pistas. Nem mesmo as de autorama. Eu perdi aquela corrida.

É lembrar que o dia de corrida era quando minha mãe e eu podíamos fazer algo juntas. Café, pão com queijo, iogurte de morango e mais um pódio para Michael Schumacher. Ela não gostava do alemão, mas eu sorria e pulava vestindo meu pijama de morango. É sentir a dor da minha mãe ao ter a carteira com foto autografada de Senna furtada. É lembrar as nossas preferências, os pilotos que mais gostamos e entrar em discussões longas. Saber que os domingos são os nossos dias especiais.

Ir a Interlagos e ouvir o ronco dos motores é uma dose altíssima de emoção. É pensar que no dia frio que eu nasci, Mika Hakkinen conquistou a pole em Mônaco. Pensar que talvez vermelho seja a minha cor favorita por até hoje eu continuar amando e venerando o homem da famosa escuderia italiana. É estar na roda de conversa com os colegas de classe juntos com o professor de matemática e ter o poder de profetizar que o “loirinho da Red Bull” seria o campeão em 2012, aqui no Brasil. No mesmo ano do tri do Vettel, ganhei um amigo por tanto falarmos de Fórmula 1.

Se Hamilton chora, é possível que ele chore por Ayrton Senna, pelas vitórias que ele viu do brasileiro, mas acredito que ele se emocione com ele mesmo. Debaixo do macacão branco da Mercedes, pulsa o coração do pequeno garoto, o menino negro nas pistas do Velho Mundo e por muito tempo o único representante afro da F-1. Infância simples, poucos recursos para investir num esporte tão caro e com casa humilde onde ele deitava num sofá-cama, assim como eu também dormia.

De família humilde e do bullying para estrear na equipe do seu país e onde seu ídolo foi três vezes campeão, o salário astronômico, roupas de grife, viagens aventureiras, cachorros bem cuidados e Shelby Cobra na garagem. São vitórias suficientes para qualquer um chorar em frente às câmeras.

O que a Fórmula 1 fez e continua fazendo com Hamilton é mostrar como o ser humano vence as suas adversidades. Dificuldades econômicas ou sociais. Presenciar o mundo do automobilismo para mim é afrontar cada um que disse que a minha opinião não tem tanta relevância pelo meu gênero. Desafiar o machismo e ir à luta por tantos direitos que as mulheres ainda não conquistaram.

Em cada Hamilton, Alonso, Vettel, Gabriela e tantos outros amantes deste esporte há um Thomas. O garotinho fã de Kimi Raikkonen a chorar na arquibancada e a emocionar todos com seu sorriso gigante, diferente de seu piloto favorito. O francês é ainda muito pequeno para entender como jogam os peões do automobilismo, mas quando crescer, saberá que foi protagonista por um dia de um capítulo a parte da Fórmula 1. Após anos de distância, a modalidade se aproxima de seu público e não existe algo mais belo e democrático do que o esporte. O Thomas de hoje pode ser o ídolo de amanhã.

Não era o amor o sentimento capaz de mover montanhas? Bem, acredito que as minhas montanhas e as de Hamilton bailam e gozam da vida alegremente em cada milímetro de um circuito.

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