O GP da Bélgica de 2017 foi o lar de mais um capítulo da tensa temporada entre os pilotos da Force India. Sergio Pérez e Esteban Ocon protagonizaram dois momentos de deixar qualquer cabeça de gasolina sem ar (e de deixar o bom e velho Pastor Maldonado orgulhoso). Logo na largada, na descida pré-Eau Rouge, Perez sofre pressão da Renault de Nico Hulkenberg à sua esquerda e tenta abrir espaço para ser ultrapassado, mas não contava com seu companheiro de equipe à sua direita. O toque ocorreu, e o carro do francês esteve perto de decolar em uma das partes maior perigo no circuito. Mas a confusão não para por aí.
Na volta vinte e nove, os dois bólidos cor-de-rosa se encontram novamente em mais um momento assustador. Novamente no mesmo local, Ocon se posiciona para ultrapassar por dentro seu companheiro, que não pensa o mesmo: O mexicano fecha a porta, há novamente o contato entre as duas máquinas, com Ocon perdendo parte da sua asa e Pérez tendo um pneu furado, outro incidente que poderia gerar uma tragédia. Em suas redes sociais, ambos apresentaram visões diferentes dos incidentes: Esteban foi agressivo e até um pouco exagerado, e disse que seu companheiro de equipe tentou matá-lo; já Checo assumiu a culpa no acidente da primeira volta e se desculpou, porém se mostrou indiferente no segundo contato, alegando não pensar que o francês tentaria fazer a ultrapassagem. Agora a pergunta que não quer calar: De quem é o erro? Ambos compartilham a culpa, porém estamos falando de um piloto que acaba de completar um ano na F1 e um Sergio Pérez que possui um histórico conturbado em suas seis temporadas e meia na categoria.
Em todo esse tempo, Pérez apresentou ser um piloto muito rápido, arrojado, porém um tanto quanto problemático. No treino classificatório do GP de Mônaco 2011, seu ano de estreia, o mexicano teve uma panca e tanto ao perder o controle de sua Sauber na saída do túnel, bater no guard-rail encher de lado a barreira de proteção, assustando os residentes de Monte Carlo e este que vos escreve. O piloto foi levado sem consciência para o hospital, teve uma concussão e uma fratura na perna, e acabou perdendo a corrida. Mas seus dois anos na equipe de Peter Sauber não renderam apenas momentos ruins. Um segundo lugar no maluco GP da Malásia de 2012 fez o circo olhar com bons olhos a temporada do mexicano naquele ano. E que ano! Mais dois pódios (um terceiro lugar no Canadá e um segundo lugar na Itália) renderam a oportunidade de correr pela McLaren e substituir Lewis Hamilton, que saía da equipe para correr pela Mercedes. Essa transferência mudaria o rumo de sua carreira, só não da maneira que Checo esperava.
Sua temporada na McLaren foi um desastre. A equipe que até 2012 brigava por vitórias e pelo título, teve de se contentar em disputar posições no meio do grid. Além disso, Jenson Button, seu companheiro na época, se apresentou várias vezes aborrecido com o comportamento de Checo, e ambos chegaram a travar uma disputa acirrada no GP do Bahrein daquele ano, com direito a toque de rodas e asa quebrada. O 5º lugar na Índia como melhor resultado e suas performances apagadas não convenceram Martin Whitmarsh e a equipe, que não optou por sua sequência para 2014, o que também poderia acabar com as chances do mexicano voltar a correr numa grande equipe.
Em dezembro de 2013, Pérez é contratado pela Force India, e de lá pra cá faz um ótimo trabalho, sendo consistente, conseguindo quatro pódios e chamando a atenção das grandes equipes como antes. Mas novamente, ao ter um piloto que dispute lado a lado o domínio da equipe, seu comportamento se apresenta corajoso e confiante demais. O incidente em Spa é o quarto momento controverso entre Sergio e Ocon na temporada, o que para companheiros de qualquer equipe é inaceitável.
As atitudes de Pérez levam uma máxima que deveria ser levada em consideração à tona: Na fórmula 1, o medo é um benefício, e não uma desvantagem. Pilotos são extremamente autoconfiantes, precisam aceitar o risco, mas o medo garante que pensem duas vezes antes de colocar a sua vida em risco, e principalmente, não prejudicar quem também compartilha do mesmo ofício.
Ao fechar Ocon, Sergio também pode fechar portas para opções futuras, como a Ferrari, onde houve um namoro nas temporadas de 2015 e 2016, porém, como Vettel tem o poder de “escolher” seu companheiro de equipe, o mexicano com certeza não é visto com bons olhos. Há rumores de Perez na Williams, mas considerando o momento da Force India, permanecer ainda parece a escolha certa.
Sobre o futuro da Force India? Só Vijay Mallya dirá. É hora de conscientizar ambos os pilotos da gravidade dos incidentes, e deixar claro de que ocorrências deste tipo não serão toleradas, para o bem de ambos, e para o melhor futuro possível da Equipe.



