Quem me acompanha sabe que eu gosto mesmo é de fazer texto opinativo. A função de informar, contar tintim por tintim de cada corrida eu deixo aos jornais especializados de esporte. E nesta semana, um assunto foi o suficiente para tirar a poeira do teclado e atualizar este blog.

A nomeação de Carmen Jorda para a Comissão de Mulheres da Federação Internacional de Automobilismo foi o estopim para o texto. Apesar da falta de incentivo às mulheres no esporte pela sociedade, instituições e governos, este projeto da FIA era visto por muitos fãs de automobilismo (inclusive por mim!) como uma maneira de incluir as mulheres nos grids.

Contudo, Carmen Jorda não pode ser considerada líder nem para o automobilismo nem pela luta feminina. Se os pontos negativos atribuídos a pilota espanhola fossem apenas o desempenho ruim em diversas categorias, acredito que a situação formada pela FIA seria menos pior. Jorda é conhecida por defender a criação de um campeonato apenas para as garotas, pois não acredita que homens e mulheres possam competir juntos.

Pippa Manm , que pilotou na IndyCar em 2015 e Tatiana Calderon, pilota da GP3, expressaram desânimo pela nomeação de Jorda. “Para mim a nomeação de alguém com essas crenças fundamentais, para um comitê destinado a promover a causa das mulheres nas corridas é incrivelmente desanimador e representa um verdadeiro passo para trás da FIA”, afirmou Mann.
Apesar de todo levante feminino por mais direitos e representatividade, a exemplo de manifestações, escritoras da luta feminina com sucesso, homens afastados dos estúdios de Hollywood por causa de escândalos sexuais (por mais que seja um movimento seletivo, como os casos de Johnny Depp e Woody Allen), no meio de tudo isso, a FIA nomeia Jorda com opiniões conservadoras e retrógradas. É o famoso caso do progresso falso. Colocar uma representante de um grupo social minoritário e que não entende a exclusão de sua própria classe é uma medida de manutenção de poder. É um fantoche de interesse de terceiros. Carmen Jorda como representante das mulheres no automobilismo equivale à equipe da diversidade da Coca-Cola formada apenas por homens. Homens de pele branca. Seria tão difícil para o ego de um cara ter uma mulher ao seu lado, sem ser companheira ou objeto de decoração, mas como competidora?

Outro posicionamento em relação as mulheres veio por parte da Fórmula 1. A categoria plus chic do automobilismo mundial afirmou que tem projetos para analisar o fim da presença das grid girls nas corridas. Se isto será ou não decidido, os fãs de automobilismo descobrirão em breve. A meu ver, a decisão parece englobar muito mais uma questão dos “novos tempos” do que uma bandeira a ser levantada e defendida de maneira aguerrida no esporte.

Vejamos um exemplo simples. Tenho uma prima de seis anos que não entende A+B de lutas sociais, mas pela primeira vez que assistiu uma corrida lançou a pergunta: “Mas só tem homens na Fórmula 1?”. Diversos amigos meus que não acompanham o esporte me perguntam o mesmo. E por que isso acontece? Temas que eram considerados tabus começam a ser explorados e revelados fio a fio, ainda com a presença de muita resistência e preconceito, mas a sociedade mudou e exige transformações. “Nós queremos interessar a uma nova audiência, e, para isso, devemos encontrar soluções que respeitem o elemento histórico, o que tornou essa categoria tão especial – mas, ao mesmo tempo, temos que atrair novas pessoas. Precisamos interessar a uma nova geração“, afirmou Chase Carey, CEO da F1.

Pilotos saíram em defesa pela manutenção das garotas no grid. Os pilotos da Red Bull Daniel Ricciardo e Max Verstappen afirmaram que são favoráveis as grid girls. Já Nico Hulkenberg comentou: “Seria uma pena se retirassem as joias das corridas”. Não é de se espantar que pilotos tenham atitudes como esta. É uma cultura enraizada. O automóvel é um dos objetos mais poderosos da humanidade. O carro é associado a características que remetem a virilidade: paixão, potência, velocidade e bravura. Ele ultrapassa a função de serviço e ganha o status de ser a identificação de quem o possui. Se há identificação, há fragmentos da própria personalidade. Não é à toa que, psicologicamente, o homem humaniza o carro e deseja amá-lo e cuidar dele como uma mulher. Ora, este não é o argumento que Sebastian Vettel utiliza para nomear seus carros? Sigmund Freud explicou este comportamento há anos. Acredito que não preciso gastar mais caracteres para exemplificar que a presença de grid girls representa nada mais do que desejos da comunidade masculina do automobilismo para ter a sensação de poder.

E a tradição?

No início deste ano, a Force India mudou a cor de seu bólido. Das tradicionais faixas nas cores da bandeira da Índia para o rosa. E poderia ter sido azul, lilás, roxo, branco. Era só uma cor exigida pelo patrocinador. Mas um carro rosa na Fórmula 1 era inadmissível, cravaram muitos fãs do automobilismo. Nico Hulkenberg fez uma piadinha de mau gosto ao dizer que fazia muito bem em não estar mais na equipe de Vijay Mallya. Já Niki Lauda, tricampeão da categoria, zombou o carro. “Safety car de parada gay”. Conheci um jornalista esportivo de um grande veículo que não teve comportamento diferente. “Carro rosa não é para a Fórmula 1. Rosa é delicadinho. Corrida é para gente forte.”

Cor deveria ser apenas uma percepção visual, contudo, a sociedade deu para as cores significados. Culturalmente, o vermelho é a paixão (ou Ferrari, para alguns), o branco simboliza a paz e o preto representa o luto. É mais do que óbvio que o carro rosa deixou diversos cabeças de gasolina indignados por ser uma cor associada ao gênero feminino. E para Niki Lauda, representação da comunidade LGBT.

Você pode estar pensando que Fórmula 1 é um esporte tradicionalista. “As grid girls sempre estiveram ali. Os homens sempre predominaram porque a vida é assim. A problematização é muito chata”. É insuportável problematizar, principalmente paixões da nossa vida, como a Fórmula 1. É chato, mas necessário. É preciso incomodar para causar reflexão. Digo mais: acredito que todas as meninas que abriram mão dos seus sonhos pelas condições externas por questão de gênero acham toda essa história muito mais chata ainda.

Você pode discordar das minhas opiniões, mas se o esporte apresentasse condições igualitárias para todos, a quantidade de pessoas que reconheceria a mulher na imagem destacada deste texto seria maior.