Nesta quinta-feira, São Paulo amanheceu fria, chuvosa e com protestos nos mais diversos locais da cidade. Máscaras cirúrgicas cobriam rostos de estátuas nos bairros da República, Mooca, Ibirapuera, Jardins, além da distribuição de folhetins explicativos.

A ação de ONGs em prol do meio ambiente ocorre em função do Projeto de Lei 300/2017, de autoria do vereador Milton Leite (DEM). A proposta é adiar para 20 anos o prazo para que os ônibus da cidade utilizem combustíveis limpos.

Ressalto que além das políticas públicas, o mundo do automobilismo também tem discussão, muitas vezes calorosas, em torno de projetos sustentáveis.

No final de julho, a Porsche anunciou que deixará a WEC no final deste ano, apesar de ter contrato em vigência até o fim de 2018. Para aloprar ainda mais os cabeças de gasolina, a casa de Stuttgart (ou Estugarda, como preferir) declarou que disputará a Fórmula E em 2018 e 2019. Assim como a Audi, Jaguar e a BMW, que também participará da disputa de elétricos a partir do ano que vem.

Dançando conforme a música, a Mercedes deixará a DTM (Deutsche Tourenwagen Masters, nome bonito!) e também integrará a Fórmula E. Relançada em 2000, a principal categoria de turismo na Alemanha tinha a Mercedes como participante mais notável.

E por que tantas equipes estariam correndo para a Fórmula E? Por que gostam de uma competição com calendário parecido com a Liga dos Campeões? Para acompanhar o irmão gêmeo perdido do Ángel di Maria, mais conhecido como Sébastian Buemi? Pelo design peculiar dos bólidos?

O chefe de competições e investidor da equipe, Toto Wolff, afirmou em entrevista que deixar a DTM não é fácil, mas que é preciso partir em busca de projetos inovadores. Ora ora, Wolff não poderia ser mais objetivo do que um lide jornalístico nesta declaração.

Ainda no século passado, o carro ganhou valor sentimental. De um objeto de consumo inacessível para o conceito de liberdade dos jovens da geração Beat. Qual exemplo seria melhor do que a maior obra de Kerouac? E no mesmo período surgiu a principal categoria de disputas automobilísticas como laboratório para experimentos. Não foi por mero acaso que tantas empresas passaram (e poucas restaram!) pela F-1.

Mas os tempos modernos são diferentes. A corrida das grandes montadoras para a Fórmula E vai ao encontro das novas resoluções europeias. A partir de 2030 será proibido produzir um carro de combustão na Alemanha e em 2050 será impossível rodar em um no país. Já o Reino Unido banirá o carro a gasolina e diesel em 2040.

Não são medidas solitárias e únicas. É uma preocupação consistente no continente europeu para reduzir as emissões de gases poluentes, uma exigência do pacto firmado na Conferência do Clima em Paris no ano de 2015. Logo, a pressa para alcançar estes novos planos refletem direto nas competições automobilísticas, uma vez que o esporte contribui com o desenvolvimento da tecnologia das fábricas.

Claro que outras categorias sem motriz elétrica como a Fórmula 1, Indy, Rally e Turismo não irão acabar abruptamente. Muito menos os carros de rua. O carro elétrico tem custo maior do que a máquina de combustão e será um processo gradual até que todo o mercado internacional consiga estabelecer este novo padrão. Apesar de novos lançamentos em salões internacionais de carros a gasolina ou diesel surgirem, uma hora ou outra as fábricas terão que apostar numa só carta.

Apenas em três temporadas a Fórmula E uniu grandes montadoras num piscar de olhos. Não é pela beleza, pelo troféu cômico ou ruído azucrinante dos carros, mas por pura e mera necessidade de aplicar novos conceitos de mercado. O híbrido é o amanhã. Clichê ou não, o amanhã já começou.